Ainda Trump e a importância do voto

Nos últimos dias muitos europeus andaram excitados com a possibilidade de Hillary Clinton ainda poder vir a ser a presidente dos EUA com a história do Colégio Eleitoral, já que este poderia, na prática, alterar a manifestação de voto dos eleitores. Vamos esquecer esta história que só cabe na cabeça dos europeus. Seria desastroso para a democracia e, bem ou mal, está decidido. Trump será, em janeiro, o presidente dos EUA.

O tema é outro e, mais uma vez, está na perceção do poder das massas e dos milhões dos eleitores. Voltando ao tema Trump e às eleições, registemos um facto: o bilionário foi eleito por 25% dos eleitores. A primeira conclusão que se pode tirar é que ele ganha por falta de comparência. A segunda é que as pessoas esqueceram o poder do voto.

Trump é um caso de choque, mas antes dele tinha sido o Brexit. E, recordemos algumas histórias caricatas que os media foram publicando no "day after" ao evento eleitoral do Reino Unido. Milhões de pessoas começaram a "googlar" para perceber o que é o Brexit e o seu impacto. E também aqui se registou uma abstenção estrondosa. Há, inclusivé, analistas que acreditam que hoje o sentido de voto seria diferente, porque houve quem não soubesse o que estava a votar,enquanto outros nem sequer se dignaram ir às urnas. O voto é, de facto, uma arma como se afirmava em Portugal nos idos anos de 75 e ao lado do voto vinha a cantiga, como muito bem escrevia o poeta José Mário Branco: "A cantiga é uma arma, eu não sabia". Falamos de algo muito poderoso e que muda as nossas vidas.

E é importante esta reflexão porque vai haver eleições em França e quem vota são os militantes e os extremos têm bastante mais militantes do que os eleitores moderados. Depois haverá o referendo em Itália ? com Renzi a ameaçar demitir-se em caso de vitória do "não" no ato eleitoral – e depois a Áustria, país onde o perigo espreita pela extravagância do discurso político. É legítimo afirmar que a generalidade dos eleitores anda a brincar com o facto de não perceberem que o voto muda as vidas. Parafraseando a coluna da semana passada: revoltem-se as consciências.

E, "pior a emenda que o soneto", os eleitores, ou boa parte deles, continua a pensar que o voto muda a vida dos políticos. Não há pior engano porque, e repito, o voto muda a vida de cada um de nós.

Fala-se hoje muito de Trump, mas Trump já foi, não há nada a fazer, haverá apenas que estar atento e sem analogias explícitas, lembremo-nos dos acontecimentos que ocorreram na Alemanha no primeiro quartil do século passado e que levaram a barbáries inimaginávies, e tudo começou com uma eleição. O voto muda a vida das pessoas, não dos políticos que estão no sistema, eles encaixam-se e estarão sempre bem. Eles limitam-se a enquadrar os eleitores, a relevaram o que de mais sinistro vai nas mentes de cada um de nós e a aproveitar a arma que é o voto. Esta é a grande lição e o resto é miudezas. O mundo vai adaptar-se à nova geopolítica, os países vão aproveitar as opções das grandes potências, e as empresas e os mercados vão descobrir tremendas oportunidades de negócios para fazerem novos "Trumps". Os cidadãos vão, simplesmente, depender deles próprios, do que escolherem.

in Diário Economico

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