Uma profunda alteração do paradigma político tomou conta do palco mediático nos países desenvolvidos, com implicações não apenas para os mercados financeiros, mas também para as agendas dos investidores que aguardavam uma maior normalização do mundo económico após a grande recessão de 2008.
Para onde quer que se olhe, o centro político moderado, seja de esquerda ou de direita, parece agora estar sob fogo do que se pode chamar uma verdadeira rebelião dos eleitores, que ao desafiar o chamado ?establishment' ? na prática, o sistema político tradicional ?, têm tendido a beneficiar novas forças políticas que apelam a valores populistas que representam, na prática, um regresso ao protecionismo comercial e à soberania nacional. Esta tendência está longe de ser circunscrita ao que verificamos na Grécia, no referendo do Reino Unido ou agora nos EUA. E a União Europeia, como a conhecemos, poderá bem ser a próxima vítima.
As razões desta rebelião não são de agora e, de acordo, com alguns analistas geopolíticos, encontram-se bem enraizadas nas sociedades ocidentais. A verdade é que o peso representativo do centro político tem vindo a cair desde o princípio do século, tendo acelerado substancialmente depois de 2007. E esse efeito é visível sobretudo na Europa.
De acordo com uma análise produzida pela equipa de análise macro do Barclays ("The policies of rage"), o evento é transversal nos países europeus escrutinados, com Portugal a registar desde 2002 uma quebra de cerca de 9% no eleitorado combinado dos partidos que votam ao centro. Um registo ainda assim melhor que a França (perdeu cerca de 29,5% desde 2007), Reino Unido (perdeu 18,6% desde 2005) ou Itália, cujo centro político registou uma queda de 26,2% desde 2008, e que enfrentará no início de Dezembro um duro teste contra o euroceticismo. O primeiro-ministro Renzi poderá perder a legitimidade para se manter em funções se for derrotado no referendo constitucional, numa altura em que o movimento 5 estrelas (eurocético) detém nas sondagens boas probabilidades de alterar a agenda política pró-europeia.
No centro do discurso dos movimentos políticos europeus que têm beneficiado desta alteração do paradigma estão essencialmente razões políticas ligadas à soberania dos países, à limitação da representatividade dos eleitores (com a Comissão Europeia, um órgão não eleito, à cabeça das preocupações), ao controlo das fronteiras e dos imigrantes que entram nos países europeus em virtude das preocupações com o aumento do terrorismo internacional, ou com os embates culturais das populações locais decorrentes da entrada massiva de refugiados nalguns países.
Do lado mais economicista, o discurso é dominado pela preocupação face ao aumento do comércio internacional, à desigualdade na redistribuição dos rendimentos (mais impostos progressivos, e maior apoio nas camadas mais baixas) e a um sentimento extremado anticorporativo. Ou seja, a exigência de maior assertividade por parte dos governos em termos de tributação e regulação às empresas multinacionais. A vitória do sim à saída da UE no referendo do Reino Unido, e a inesperada vitória de Donald Trump assentaram em muito no aproveitamento destas dinâmicas em termos de discurso que, para já, se materializaram em mandatos para um maior protecionismo no mundo desenvolvido ocidental.
Resta saber se haverá seguidores e, depois, se os mandatos acabarão por ser cumpridos. Mas os efeitos de um maior protecionismo global parecem ser evidentes. Haverá maiores restrições aos movimentos de bens e serviços, maior rigidez no mercado de trabalho (uma das premissas vitais do projeto do euro) e na circulação de capitais, tão importantes para gerar investimento produtivo e gerador de riqueza. Obviamente, estes terão impacto sobre o aumento da harmonização das regras internacionais de regulação em termos de produção, fiscalidade e de maior coesão de projetos supra regionais. Ou seja, colocará a UE ou a Organização Internacional do Comércio ainda em maior risco de dissolução ou estagnação.
Em última análise, teremos muito provavelmente um menor ciclo de crescimento económico, em virtude da redução implícita do papel do comércio internacional. Para uma economia pequena como Portugal, menor globalização dos grandes mercados internacionais significa também menor capacidade para crescer, menor acesso aos centros de decisão, menor acesso aos nossos quadros qualificados para crescer individualmente e menor acesso ao capital internacional para financiar as empresas e gerar emprego. Talvez por isso, a queda do centro político seja mais moderada do que no resto da Europa.
Mas, nos dias de hoje, em que a tentação para o discurso político fácil e demagógico parece ser útil para gerir uma agenda política partidária em detrimento do interesse de uma agenda para o país, faz sentido incentivar a reflexão atenta sobre o que se está a passar à nossa volta. O mundo desenvolvido vai perder com a escalada dos "touros enraivecidos" e do protecionismo económico, mas as consequências podem ser devastadoras para um país económica e financeiramente frágil como Portugal.
A vitória de Donald Trump veio sem dúvida agitar as águas da discussão geopolítica mundial. Teve tanto de inesperado como de incerteza para o futuro. O aumento do protecionismo na maior economia mundial tem implicações na forma como o mundo vai desenhar-se política e economicamente nos próximos anos. É, sem dúvida, uma confirmação, depois da surpresa que foi o Brexit, de que o ceticismo relativamente ao sistema (ou ?establishment') veio para ficar na agenda geopolítica, e com custos para a economia mundial.
E para os investidores nos mercados financeiros? O que se pode esperar agora da nova administração? A curto prazo, muitos dos observadores consideram ? e parece razoável ? que o mercado acionista no curto prazo deverá registar uma correção entre 2,3% a 5% inicial, como reação à incerteza causada pelas políticas económicas de maior expansionismo fiscal e protecionismo comercial nos EUA. Olhando para o índice S&P 500, estaríamos a falar de um patamar para os 2000 pontos de índice como referência.
Doravante, tudo terá a ver com a força da legitimidade de Trump para implementar as polémicas medidas anunciadas. E aqui importa destacar o facto de o recém-eleito ter registado uma vitória mais estreita sobre os Democratas, o que, por si só, poderá evitar a implementação de algumas medidas mais extremas. Desde logo, parece de menor probabilidade a implementação de um grande pacote de incentivos fiscais que faça derrapar o endividamento, da mesma forma que as medidas contra a emigração e os atuais tratados de comércio internacional parecem improváveis de implementar em toda a sua extensão. Isto apesar de as duas câmaras serem maioritariamente republicanas; são conhecidas, aliás, as fortes divergências entre os líderes do Senado e o programa do candidato. Como Trump foi eleito por uma margem estreita, o que se pode esperar é uma deterioração das relações dos EUA com o processo de globalização, mas porventura não da forma publicitada.
Porém, as bolsas devem permanecer alerta durante algum tempo ? quem sabe até mais tempo do que após o referendo do Brexit. Se a probabilidade de Trump conseguir fazer passar um enorme programa de estímulos fiscais aumentar significativamente, as remunerações das obrigações a 10 anos dos EUA (que já registaram uma subida para os 2%) deverão manter a sua trajetória ascendente. O mesmo se pode dizer se as políticas anti-emigração e as barreiras ao comércio internacional se tornarem muito agressivas. Quanto aos mercados acionistas, tudo depende da capacidade de se restaurar a confiança dos investidores. E aqui não existem, para já, razões para esperar uma rápida reposição da mesma a nível global.
As negociações do Brexit vão voltar ao centro das atenções e, em Dezembro, os investidores vão enfrentar novo teste de nervos com o possível cenário de uma derrota do primeiro-ministro Renzi no referendo sobre a Constituição. Um resultado que pode espoletar eleições antecipadas em Itália e um potencial referendo à permanência do país na EU ? e que pode mesmo acontecer, tendo em consideração as recentes sondagens.
Impõe-se uma resposta por parte da Administração Trump para poder quebrar esta desconfiança dos investidores, que passará pela retórica pós-eleições do Presidente Trump (abandonando algum radicalismo associado ao candidato), pela capacidade de construir uma ponte com a fação moderada do Partido Republicano e pelas pessoas que integrarem o gabinete presidencial. Adicionalmente, o posicionamento da Reserva Federal pode ser importante. A manutenção de uma mensagem mais agressiva relativamente à subida de taxas, num cenário pautado pela elevada incerteza, poderá fazer aumentar a volatilidade e a incerteza relativamente a uma potencial recessão.
Numa fase em que haverá, inicialmente, poucos catalisadores a alimentar a confiança dos investidores ? a "earnings season" acabou, dados relevantes para a economia apenas em Dezembro ?, a Fed pode muito bem voltar a assumir um papel central, caso Trump assuma um posicionamento mais radical em termos de agenda política.